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Crédito mais caro e Selic alta elevam o endividamento das famílias

Os bancos estão se prevenindo, pois o conceito de PDD (Provisão para Devedores Duvidosos) atingiu 7,6% da carteira total de crédito dos bancos em janeiro de 2026. Na realidade, o Bacen possui um levantamento indicando que as estimativas de perdas podem atingir R$ 542 bilhões, com base nos dados dos balanços já publicados pelas instituições financeiras.

 

Não se trata de um efeito isolado. Com a atual taxa Selic em 14,75%, o custo das dívidas e empréstimos aumenta tanto para pessoas jurídicas (PJs) quanto para pessoas físicas (PFs). Este é o foco desta análise: as pessoas físicas, até porque vale mencionar que, pela primeira vez, o volume de crédito às PJs foi superado pelo volume de crédito às pessoas físicas, conforme estatísticas do Bacen e da Febraban.

O impacto para as famílias já é perceptível

Elas estão comprometendo até 30% de suas rendas para quitar compromissos financeiros, segundo pesquisa com dados de novembro de 2025. Ainda de acordo com o Bacen, 11% desse comprometimento refere-se apenas ao pagamento de juros, enquanto 19% corresponde à amortização do principal.

 

O sinal de alerta já foi acionado nos bancos em relação a essa linha de crédito destinada às pessoas físicas. Como consequência, houve alteração nas regras para o cálculo do PDD. Em conjunto com o CMN (Conselho Monetário Nacional), foram adotadas medidas preventivas, tais como:

 

  • A mudança estabelecida pela Resolução CMN nº 4.966;
  • Os bancos não devem mais esperar a inadimplência para agir em relação ao PDD, mas sim se posicionar quando houver expectativa de ocorrência, cabendo essa análise às áreas de crédito;
  • Como resultado provável, as provisões aumentaram, mesmo sem a concretização de inadimplência.

 

Dessa forma, os bancos deixaram de atuar apenas no risco imediato e passaram a considerar também cenários previsíveis.

 

A função principal do Bacen é manter o sistema financeiro nacional saudável. Para isso, atua como fiscal das posições de risco dos bancos, inclusive para evitar traumas semelhantes a casos recentes amplamente divulgados pela imprensa.

 

As famílias de baixa renda são as mais afetadas, pois recorrem ao crédito com taxas elevadas para quitar dívidas anteriores, entrando em um ciclo contínuo de endividamento. Não estão incluídos, nesse contexto, os empréstimos de crédito rural nem os financiamentos imobiliários.

 

Os principais vilões são o crédito rotativo do cartão, que atingiu 64% em janeiro, o cheque especial e o cartão parcelado, que juntos representam cerca de 30%. Além disso, houve um excesso de concessões no crédito consignado, impulsionado pelo afrouxamento das regras de desconto em folha por parte do governo. O crédito para consumo, especialmente com garantia de veículos e eletrodomésticos, também apresentou forte crescimento.

 

Acesso ao crédito e impacto nas famílias de baixa renda


É importante destacar que o Brasil passou por um processo significativo de bancarização nos últimos anos, o que facilitou o acesso ao crédito pelas famílias. No entanto, esse movimento impactou principalmente as famílias de baixa renda, que continuam recorrendo a crédito caro para quitar dívidas anteriores, sem conseguir eliminá-las. O efeito imediato é a redução da capacidade de poupança, o que representa outro sinal negativo para a economia.

 

Com a Selic em 14,75%, não se vislumbra, no curto prazo, uma melhora significativa desse cenário. Soluções estão sendo analisadas, mas tendem apenas a amenizar a situação.

 

Diante desse contexto e das frequentes notícias nos principais meios de comunicação apontando preocupação com o cenário, observa-se que o governo federal, em conjunto com bancos, Bacen e Febraban, estuda medidas para renegociação de dívidas, incluindo escalonamento, ampliação de prazos e aplicação de taxas de juros subsidiadas.

 

O principal efeito dessas medidas será um alívio momentâneo. No entanto, como na economia não há garantias absolutas, existe o risco de que parte das famílias, ao perceber redução no valor das parcelas mensais, volte a buscar mais crédito. Trata-se, portanto, de um cenário que ainda deverá ser acompanhado ao longo do tempo.